Chegou cansada da festa e sua primeira providência foi arrancar o par de botas que lhe consumiam os dedos. O mindinho estava apertado, sofrendo entre seus semelhantes e o couro de alguma vaca. Deu aquela boa esticada e estalada nos dedos para relaxar e observou um furo em sua meia. Ali, bem no fatídico dedão! Lamentou o triste fim de uma meia que lhe acompanhava há tanto tempo...
Lembrou-se do dia que ganhou o par de meias de seu namoradinho de infância, Abel. Moço loirinho, dos olhos esverdeados e bochechas rosadas. "- Parecia um anjinho barroco!" - diziam os vizinhos. Abel e Clarice era amigos desde pequenos, namoradinhos na adolescência e separados pela vida. No dia que Abel chegou com um pacote esverdeado com um laço de fita azul turquesa, Clarice ficou meio espantada, não era aniversário, muito menos Natal, não era dia nenhum, apenas uma quarta-feira de céu nublado no outono.
Cuidadosa, a moça desfez o laço e abriu o pacote devagar, para que não se rasgasse...olhou para o presente... ficou espantada.
- Abel, que presente é esse?
- Não gostou?
- Um par de meias?
- Pretas!
- Sim, pretas!
- Para combinar com suas calcinhas!
- ABEL! Que palhaçada é essa de combinar com minhas calcinhas?
- Eu vi outro dia penduradas no varal. Achei que fosse uma boa idéia...
- Me dar um par de meias pretas? Quero saber como vou usar isso!
- Ah, se não conseguir combinar com nada, use em casa, quando vc tiver só de calcinha! Vai ficar linda com meias e calcinhas que combinam. Eu posso até imaginar... Você usando suas meias e eu...
- Você o que?
- Nada não, só imaginação mesmo...
- Você e suas imaginações! Obrigada pelo presente, Abel!
Clarice abraçou Abel, riram, conversaram mais um pouco e se despediram. Abel foi pra casa meio triste, meio contente, metade de seu objetivo havia sido cumprido. Ficou pensativo com o fato de Clarice não saber como usar um par de meias, só pq eram pretas! Quando abriu a porta do seu armário, encontrou lá o outro par de meias, também pretas, que havia comprado pra ele, na intenção de usá-las juntinhas com Clarice, num dia de inverno vendo filme sobre um edredom.
Possuído por uma certeza enlouquecedora de que isso nunca aconteceria, pois Clarice já estava flertando com outro rapaz do colégio, se enforcou com seu par de meias e deixou um bilhete:
"Saio da vida para entrar na história como aquele homem que queria ver a mulher amada uma única vez usar o par de meias presenteado. O que as mulheres têm contra meias pretas, já que ficam maravilhosas de calcinhas pretas e assim estariam combinando tudo? Depois dizem que o pretinho é básico!
FIM
p.s.: eu ainda sou virgem também! realmente, não mereço viver! vou me acabar com minha vida
Fim, de novo!"
Pros mais chorosos, Abel não morreu, apenas adquiriu um galo enorme na testa quando bateu de cabeça na escrivaninha e recuperou-se depois da boa surra de vara de marmelo que sua mãe lhe com deu por ter feito um papelão desses! Onde já se viu bilhete de despedida com p.s. e dois finais?!
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