Foi muito bonita a hora da sentença, porque, da sala do júri, a gente ouvia o público gritando e os fogos explodindo.
Perez, Gloria
Acabou. Dois anos após o fato, pelo menos a maior parte, com o fim do julgamento e a sentença determinada, ainda restam algumas dezenas de recursos, mas creio que nada vá mudar, em muito o resultado.
Não vou entrar no jurisdiquês [sic], não escrevo aqui pelos ossos do ofício, também não irei fazer apologia à acusação ou mesmo à defesa, pois creio piamente que, principalmente este último, seria em vão.
No último dia 27 de março, o tribunal do júri considerou culpado o casal nardoni pelo homicídio triplamente qualificado e também agravado no caso do varão, este é o fato e não pode ser questionado, o que me resta perguntar é: desde quando eles estão condenados?
O conceito básico do tribunal do júri é o julgamento dos acusados pelos seus pares, ou seja, membros médios e ilibados da sociedade, que por sua vez, atuariam como uma personificação da consciência social vigente.
Isso seria muito razoável, e até mesmo bonito, se não fosse por uma questão, isto nada tem a ver com Justiça.
Algo poderia ser falado acerca da imparcialidade dos jurados, entretanto, não creio que este quesito seja realmente possível, uma vez que se tratam de pessoas comuns, ou como se costuma ressaltar, cidadãos médios.
Os cidadãos médios são os mesmos que passaram dias do lado de fora do fórum, cantando, orando, vendendo, glorificando, amaldiçoando, soltando fogos e tantas coisas mais, tudo isso, obviamente, intensamente veiculado pelos meios de comunicação.
E esse é um ponto nefrálgico para a questão acima proposta, afinal, a mídia é peça fundamental na formação da consciência social, ou seria crível que algum jurado não tenha assistido televisão, ouvido rádio, lido jornal ou mesmo pela internet.
Durante estes dois anos, a mídia nunca foi imparcial, admitamos que ela até se esforce, apenas por benevolência, e por acreditar apenas os advogados que defendem assassinos são desprovidos de moral, mas ainda assim, ela é mais contundente do que o discurso de qualquer promotor.
Assim forjo minha resposta, o casal nardoni está condenado desde o exato momento em que a mídia abraçou o caso, ou a causa, por assim dizer, a mídia não apenas os condenou, mas também nos levou de volta alguns séculos e talvez até mesmo milênios.
Vendo a multidão ensandecida do lado de fora e pelas ruas, em qualquer lugar do país, tive a nítida sensação, voltamos ao pão e circo romano, voltamos às guilhotinas francesas, voltamos aos autos da fé no cristianismo e, até mesmo, aos apedrejamentos árabes e, pessoalmente, me senti enojado por isso.
Meu sentimento nada tem a ver com o resultado do julgamento, como falei, eles já estavam condenados, o tribunal do júri só serviu para determinar o quantum da pena a ser aplicada, meu sentimento tem a ver com a decadência humana, com a sensação de que mesmo apesar de milênios passados, não mudamos tanto assim.
As pessoas falam em Justiça, mesmo após um tribunal de exceção, que nós mesmos vedamos em nossa carta magna, as pessoas falam em Justiça, mesmo sabendo que no fundo, milhares de crianças são mortas de maneiras muito mais cruéis todos os dias, entretanto, elas não aparecem na mídia, logo, não estão ao alcance da Justiça, pois não são percebidas pela consciência social.
Considero triste e decadente que se comemore a condenação de dois seres humanos, não sou contra a condenação, pelo contrário, acho que o Estado tem de exercer seu braço forte, entretanto, fazer disso um motivo de alegria e achar que após isso vivemos em um país melhor e mais justo, é uma ingenuidade sem tamanho, é apenas sentar e esperar o próximo espetáculo com cobertura em tempo real. |